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Boas práticas na aquisição de plantas aromáticas, medicinais e condimentares em viveiro

Publicado por Luís Alves, no seu blogue Plantas aromáticas, medicinais e condimentares

O número de projetos de produção de plantas aromáticas, medicinais e condimentares (PAM) ao ar livre, em modo de produção biológico (MPB), para posterior secagem, tem vindo a aumentar em Portugal. Como consequência a procura de plantas para a instalação destes cultivos junto dos viveiristas aumentou também, de tal forma que supera neste momento a capacidade instalada no país para dar resposta à procura. 

Surgem entretanto novos viveiristas, oferecendo plantas a preços muito baixos, como forma de se tornarem competitivos, mas ainda sem a experiência necessária para oferecerem plantas e serviços com elevada garantia e qualidade.

Desta forma torna-se imprescindível ao promotor obter material vegetal de qualidade irrepreensível para que o seu projeto seja bem-sucedido, já que o mercado é extremamente exigente no que respeita à correta identificação das espécies cultivadas.

 

Pureza varietal das plantas a adquirir

A escolha do material vegetal assenta, na maioria dos casos, no menor preço de mercado, sendo que a maior parte dos promotores não dedica especial atenção àpureza varietal. Infelizmente é cada vez mais frequente encontrar novos projetos plantados com espécies erradas ou híbridos muito heterogéneos obtidos por semente, com pouco ou nenhum valor comercial.

O custo de uma planta propagada por semente é normalmente muito inferior ao custo de uma planta propagada por estacaria ou divisão. Por outro lado, a pureza varietal da maior parte das plantas propagadas por estacaria/divisão é muito superior.

Nenhum híbrido deverá ser propagado por sementeira (ex: tomilho-limão/Thymus x citriodorus; Hortelã-pimenta/Mentha x piperita), pois a probabilidade de vir a gerar populações em cultivo muito heterogéneas é enorme, com todos os problemas que isso implica, quer ao nível da produtividade, quer da qualidade obtida.

É fundamental garantir que estamos a adquirir as espécies pretendidas e não espécies semelhantes. É vulgar encontrar plantações de erva-príncipe (Cymbopogon citratus) uma gramínea tropical difícil de obter por semente, em que na realidade está plantada uma espécie similar (C. flexuosus; C. nardus; C. winterianus), mas cujas propriedades são absolutamente distintas das que o mercado pretende.

Também em cultivos de estragão-francês (Artemisia dracunculus) é vulgar encontrar estragão-russo (Artemisia dracunculoides), este facilmente obtido por semente, mas sem cheiro, sem sabor  e sem valor comercial, ao contrário do primeiro, muito aromático, mas só obtido por estacaria, sendo o seu enraizamento difícil de obter com grandes percentagens de sucesso.

Não são autorizadas em MPB plantas provenientes de viveiros convencionais, obtidas por micro-propagação (ex: culturas in-vitro) nem plantas geneticamente modificadas. A utilização deste tipo de plantas pode pôr em risco todo o projeto.

Considero fundamental a visita do promotor aos viveiros selecionados aquando da consulta de preço, quer sejam em Portugal ou num outro país, de forma a poder verificar com os seus próprios olhos todas as condições de produção.

É crucial assegurar que, posteriormente à aquisição de plantas, continuará a existir uma ligação com o viveirista, quer seja no apoio e esclarecimento de todas as dúvidas que surgirem, quer seja na ajuda ao escoamento da produção.

Muitos dos novos agricultores já instalados são bombardeados com frequentes dúvidas para as quais é impossível ter disponibilidade para responder.

Aquando da seleção do viveiro para a aquisição das suas plantas, garanta que consegue as melhores condições de pós-venda, para que a relação com o viveirista não termine no momento em que pagou as plantas.

Leia com atenção as condições de venda do viveirista. Lembre-se que, ao encomendar as suas plantas, está a formalizar um contrato de compra e venda, regulado pela legislação portuguesa.

De seguida, enumero um conjunto de procedimentos que considero fundamentais para a correta aquisição de material vegetal, fundamental na obtenção de colheitas de grande qualidade.

 

Seleção dos viveiros a contactar

Tudo começa com uma prospeção de mercado, na qual o promotor do projeto de produção de PAM fará uma consulta de disponibilidade e preço das plantas que pretende adquirir. Tendo em conta a legislação, a certificação MPB, deverá ter o cuidado de fazer uma rigorosa seleção, de forma a não cometer erros nesta fase.

Os viveiros a contactar para a consulta e aquisição de PAM devem cumprir os seguintes requisitos:

  • Ter atividade legalmente constituída para o efeito;
  • Ter licença de viveirista/passaporte fitossanitário;
  • Estar certificado para o modo de produção biológico, como viveirista;
  • Ter outras certificações que atestam a qualidade de produção ou origem do material genético;
  • Ter pés-mãe dos quais são provenientes quer sementes, quer partes de plantas usadas na propagação das plantas que comercializa;
  • Poder receber visitas do potencial comprador e toda a estrutura produtiva ser observada pelo mesmo.

Deverá o promotor do projeto enviar um mail aos diversos viveiristas que selecionou, com o pedido de orçamento, onde constem as seguintes informações:

  • Dados pessoais (ex: nome, morada completa, contactos);
  • Nome vulgar e o nome científico das espécies que pretende adquirir (ex: Tomilho-vulgar/Thymus vulgaris);
  • Quantidades exatas de plantas das quais pretende cotação, por espécie;

Deverá solicitar ainda as seguintes informações:

  •  Quais as plantas propagadas por semente e quais as plantas propagadas estacaria/divisão/enxertia.
  • Condições comerciais;
  • Calendário de produção;
  • Prazos estimados de entrega;
  • Condições de transporte até às suas instalações.

Calendarização da entrega

A maior parte das plantas propagadas por estacaria/divisão só podem ser multiplicadas a partir do momento em que apresentam crescimentos com tamanho suficiente para serem cortados ou divididos com o objetivo de enraizar. Isto só acontece para a maioria das espécies, a partir de finais de Março, meados de Abril, de acordo com as condições climáticas do ano.

O que significa que a entrega de plantas propagada por estacaria/divisão só pode ser feita a partir de finais de Maio, meados de Junho e durante todo o Verão, até Setembro para espécies vivazes (ex: hortelã-pimenta, estragão-francês) ou Outubro, para espécies perenes (ex: tomilho-limão, limonete).

As plantas propagadas por sementeira ficam normalmente disponíveis mais cedo, pelo que convém acordar com o viveirista a entrega destas plantas em primeiro lugar.

Não se esqueça que, ao formalizar a encomenda está a aceitar e concordar com as condições de venda do viveirista, como acontece em qualquer outra relação comercial.

Formalização da encomenda

A maior parte dos viveiros aceita a encomenda de plantas com uma percentagem (%) do valor total da mesma, como entrada. A encomenda deve ser feita com a maior antecedência possível, em relação à data prevista para a plantação. A entrega de plantas é normalmente faseada, de acordo com a disponibilidade das mesmas, resultante da programação do viveirista e do acordo, entretanto definido com o promotor do projeto, para a entrega de plantas.

É frequente haver pedidos de alteração de espécies ou do número de plantas por espécie, depois da encomenda ser formalizada. O viveirista não é legalmente obrigado a fazer essa alteração, pelo que o promotor deverá estar seguro das espécies e da quantidade de plantas que pretende adquirir no momento da formalização da encomenda.

Num mau ano agrícola, o viveirista poderá não conseguir cumprir com a entrega da totalidade das plantas na calendarização pré-estabelecida, o que normalmente surge salvaguardado nas condições de venda que o promotor aceitou ao formalizar a encomenda de plantas. Cabe às partes o bom senso de perceber e ultrapassar esta situação. Cabe relembrar ao promotor do projeto que também ele será agricultor, exposto às mesmas dificuldades que o viveirista enfrenta na gestão do aleatório, do clima às pragas e doenças e outras catástrofes naturais.

Receção das plantas

Cabe ao promotor reunir todas as condições necessárias para receber as plantas nas datas previstas de entrega. É fundamental assegurar na exploração uma zona com condições mínimas de rega, luz e proteção contra animais e outros potenciais invasores, que funcione como local temporário onde as plantas vão permanecer, após a sua entrega e até serem plantadas.

Qualquer reclamação devidamente fundamentada deverá ser feita nas 24h posteriores à receção das plantas. Findo o prazo, as plantas ficam por conta e risco do cliente. O cliente é o único responsável pela manutenção das plantas a partir do momento em que as recebe.

A agricultura é para cavalheiros, senhores e senhoras com um estilo de vida peculiar, que fazem jus à sua palavra. Trabalhe sempre com pessoas de palavra e mantenha a sua. Faça disso uma questão de honra.

In: http://cantinhodasaromaticas.blogspot.pt/2015/05/boas-praticas-na-aquisicao-de-plantas.html 

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